Meu Sertão

Aos que ficam, desejo boa sorte
Aos que ainda permanecem
Fitando as silhuetas áridas desta terra ingrata
Apenas digo adeus.

Desde Canudos até meus passos fundos
Tudo o que sinto é esse cheiro putrefato
De trabalho, morte e persistência
Morte e vida Severina
Onde fostes, esperança minha?

Tudo o que nos resta é partir
Deixar para sempre aqui
Esse sentimento de algo inacabado
Do filho antecipado
E da morte, que levou o coitado.

Ossos, pele e tripa
Composição normal deste povo sofredor
Alimento de vida ao verme decompositor
Moscas e formigas
Únicos sobreviventes desta guerra que nunca terminou
E agora, para sempre, eu vou.

Eu vou para um lugar
Onde ainda haja esperança
Que brote, seja no mísero sorriso
Ou em uma pequena criança
Lá não existe nomes
Vontades, desejos ou satisfação
As moscas e vermes não me comerão
Serei eterno,
Ainda que meu coração não pulse
Que meus pulmões não trabalhem
E que minhas mãos não sejam nada mais
Do que espectros vazios.

Vou para lá,
Para onde minha mulher há muito se foi
Para o lugar onde todos repousam
Não obstante meus filhos
Roubados de mim pela própria sede, fome e miséria
Vou para lá, com Deus Nosso Senhor
E ainda que tudo isso não seja uma mentira maior
Do que aquelas que me contaram
Prefiro acreditar que agora vou
Para um lugar onde o sertão ainda não alcançou.

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