Belle Époque

 

 

Minha Balenciaga pendia vagarosamente em minha mão direita. Alisei-a com cuidado. Experimentei cada contorno meticulosamente desenhado, brincando com o zíper de tempos em tempos. Seu couro era absolutamente fantástico. Era quase possível sentir o boi contorcendo-se de dor ao ser morto para sua pele ser arrancada e usada como meu acessório predileto. Sorri de felicidade.
Meus pés eram impossivelmente espremidos dentro de meu Jimmy Choo preto. Seus saltos divinamente altos destruíam meus calcanhares vagarosamente. Meu dedão e meu dedo mínimo agora eram vizinhos.
No meu corpo estava a obra de arte em si. Um Prada que parecia ter sido cortado especialmente para as curvas espetaculares de minha cintura. E no meio desta pintura absolutamente surreal na qual eu era a protagonista, havia um Armani. O mais belo e completo cinto Armani que Giorgio poderia conceber. E ele era meu.
Cristais brilhavam nas minhas orelhas, pulsos e pescoço. Swarovski. Os mais caros, sempre.
À frente de meus olhos havia aquela armação dourada que eu tanto adorava. Meus óculos de sol Dolce & Gabbana. Se a perfeição tivesse qualquer traço humano característico, eu seria todos eles.
Faltava um toque final. Um desfecho.
Partículas de meu Chanel N.º 5 começaram a flutuar pelo meu quarto e grudar em minha pele macia.
Eu estava pronta.
Meu celular já havia tocado tantas vezes que não me surpreenderia se Ryan, meu chefe, saísse através dele e me estrangulasse. Não, ele não faria isso. Eu era bonita demais para ele me matar.
Sorri e saí andando de meu apartamento no Upper East Side. Minha BMW estava perfeitamente encostada junto à calçada, meu motorista particular esperando para abrir a porta. E assim ele o fez, acelerando naquela tarde primaveril em Nova York.
Fitei-me no espelho retrovisor. Meus olhos castanhos, meus cabelos lisos caindo atrás dos ombros e meus lábios carnudos que fariam Angelina Jolie se contorcer de raiva. Minha pele branca era facilmente confundida com a neve que caía descontroladamente nas manhãs de inverno.
Meu celular tocou novamente.
― Estou a caminho, Ryan ― falei, antes que aquele homem insuportável pudesse torrar minha paciência mais uma vez.
Era uma tarde quente e belíssima. E eu estava indo trabalhar.
A BMW voltou a parar na frente de outro prédio no Upper East Side. A viagem toda não havia levado mais do que cinco minutos.
Havia chegado ao local onde eu trabalhava periodicamente.
Subi os elevadores daquele prédio luxuoso e parei na porta de um duplex milionário. Um homem cujos olhos azuis cintilavam foi quem abriu a porta, um sorriso pecaminoso estampado no rosto famoso.
― Emily, que prazer tê-la aqui ― ele disse, realmente sentindo prazer em me ver, afinal, esse era meu trabalho.
Dar prazer.
Sim, eu era uma profissional do sexo. Prostituta. Puta.
Mas uma puta de luxo, que vivia eternamente na Belle Époque.
E, acima de tudo, uma puta invejável.

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