Um observador

Capitães da Areia - Jorge Amado

Mais uma vez, ele estava lá. Tão certo como o nascer do sol, tão regular quanto o tique-taque do relógio. Armado de um caderno amarelo e uma caneta velha ele nos olha. Tão sublime, tão solene, tão absolutamente resignado em suas emoções.

Ele nos observa. Eu, meu bando, a mulher. Nosso pequeno bando disperso em nosso trapiche cotidiano. O homem presta atenção a tudo, outrora escrevendo lentamente em seu caderno velho, outrora coçando seu cabelo bem penteado.

Nas primeiras aparições, o medo foi geral. Quem haveria de ser aquele homem interessado em moleques maltrapilhos na beira desta praia qualquer? Quando a peste abateu-se sobre nós e levou um para os braços do Senhor Nosso Salvador, ele apenas observou com lágrimas naqueles olhos miúdos e não fez mais nada. Foi então que entendemos que ele era um caboclo de respeito, que não faria mais nada se não ficar olhando para o desenrolar daquilo que não lhe pertencia.

Ele nunca falava. Apenas escrevia, coçava e respirava. Por muito tempo foi assim. Padre José Pedro insistia em dizer que ele era apenas mais um daqueles loucos que víamos quando visitávamos o Pelourinho. Não, este era diferente. Este tinha nos olhos a vontade de saber o que acontecia dentro de cada um de nós. Quem era ele?

Tão grande meu comichão e consternação, pergunto ao homem quem ele era e o que queria ao ficar nos encarando de maneira tão singular. Ele apenas piscou duas ou três vezes, levantou-se e saiu andando como se eu fosse uma sombra no fundo de sua cabeça. Talvez isso realmente fosse verdade. Talvez fôssemos apenas sombras.

Dia vai, dia vem. Anos se completam, parabéns são cantados. Bolos deixam de ser comidos, vidas deixam de ser completadas. Nosso bando se desfaz. Cada um segue um rumo, cada um toma conta de sua vida. Dora já compadece há muito; Volta Seca sumiu junto com aquele que todos temem por essas bandas nordestinas. Caboclo Lampião. Pirulito foi levado junto com padre José Pedro para o interior. Restou eu e apenas eu. Eu e o homem, que ainda fica olhando, alternando a visão entre minha alma e o mar, que gorgoleja atrás de nosso antigo trapiche. Neste dia, o homem abriu a boca, e num relampejar, folheou seu caderno até a primeira folha, já muito amassada e debilitada pelo tempo de observação. Ele calmamente falou, como se proferisse o nome de um santo, ou o título de uma vida:

— Capitães da Areia — ele disse, perdido em sua própria criação.

Foi então que ele saiu andando, sorrindo sozinho, abanando o caderno
como um pequeno troféu, um livro recém-escrito.

E, desde então, o homem nunca mais apareceu.

 

Conto baseado no livro: Capitães da Areia, de Jorge Amado.
Nota: Não é plágio, foi feito para um concurso. HAHA

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Um pensamento sobre “Um observador

  1. […] quem diria que finalmente eu ganharia meus primeiros centavos com um CONTO! Sim, Um Observador foi premiado, lembram? Poeira das Estrelas e Mãenequim, publicados! E todos você conferiu aqui no […]

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