Arquivo mensal: maio 2010

Herói

Khaled olhou tudo ao seu redor. Os prédios em cores modorrentas e crepusculares, o chão iraquiano coberto daquela poeira fúnebre, o andar irregular das mulheres cobertas e, não obstante, o caminhar doloroso dos cães e gatos mutilados.

Sua mão direita coçava seu cabelo bem aparado e acariciava a pele morena que cobria seu rosto. Se seu pai ainda estivesse vivo, ele estaria à sua frente, pedindo para que Khaled continuasse caminhando, pois estava quase na hora das orações.

Mas o Sr. Hamir há muito havia morrido com aquele míssil que destruíra a laje de sua loja. De tudo aquilo, só restaram as inscrições da popa da arma. United States of America.

Khaled cuspiu a lembrança amarga e continuou andando, sozinho.

Sua mãe o recebeu na porta de casa, afagando o único filho que continuava vivo. Os dois sentaram-se à mesa e conversaram por alguns instantes.

E isso se repetiu por longas e longas semanas.

Até que então, surge alguém novo na vida do pequeno Khaled.

“Tenho uma proposta”, o homem colocou-se à frente da criança que acabara de sair da escola.

Khaled levantou os olhos miúdos e encarou o desconhecido. Barba, o turbante branco enrolado na cabeça, os dentes amarelos devido ao narguilé. A criança continuou em silêncio, esperando o homem continuar para poder sair.

“Sei que seu pai, o honrável Sr. Hamir morreu há alguns meses”, o homem prosseguiu, fazendo os olhos amendoados de Khaled enxerem-se daquele líquido salgado que transportava amargura. “Ele era muito digno. E hoje venho oferecer a chance para você se vingar, jovem Khaled”.

Khaled retesou-se, não por interesse, mas medo.

“De onde o senhor…”

“Trabalhamos juntos na guerra do Kuwait, há muitos anos atrás”, mentiu ele. Mas a criança era jovem demais para saber que seu pai jamais havia ido para guerra nenhuma.

No entanto, o jovem Khaled continuou conversando com o homem desconhecido, interessado em poder honrar o legado de seu pai.

“O que eu faço para vingar a morte de meu pai, senhor?” os lábios de Khaled semicerraram-se numa linha firme e tensa. Expressão de ódio. Expressão que criança nenhuma jamais deveria mostrar. Mas o pequeno Khaled estava acostumado a ela.

A expressão estava em todos os rostos na rua, em todas as lágrimas nos velórios, em todos os olhares na mesquita. Khaled era apenas mais um.

“Morra em nome dele”, continuou o homem.

A criança retesou-se de vez, os ouvidos atentos, o coração disparado, os pés estacados, o cérebro processando medo e exultação.

Uma semana se passou antes que o pequeno desse sua resposta.

Na’am”, decretou ele.

Sim.

O jovem Khaled acabara de concordar em morrer pelo legado de seu pai. O legado de alguém que não tinha mais um legado a defender. Khaled morreria por alguém que não vivia. A mais cruel das antíteses, a mais dolorosa das realidades.

Na outra manhã, apenas uma preparação. Um colete com pólvora e pregos foi cuidadosamente colocado em baixo das roupas empoeiradas de Khaled. Uma instrução foi dada. Entrar na sala de aula e esperar. Só. Apenas esperar pela morte certa. Apenas esperar para morrer e matar.

“Você vai morrer como herói. Alá tem muitas e muitas coisas boas para você. Esse é seu destino. Apenas obedeça.”

E ele obedeceu. O sol alto, as passadas ligeiras, o suor frio e as mãos geladas. Não havia dito adeus para sua mãe. Mas já era tarde demais.

Sentou em sua cadeira cotidiana, as nádegas tocando na madeira fria. Olhou para cada um daqueles rostinhos que pertenciam a seus amigos. De Laila até Noah. Vinte crianças e a professora amontoavam-se naquela saleta, felizes em sua infelicidade, contentes com as disparidades que a vida lhes mostrava. Apenas crianças e a professora.

Foi então que Khaled se arrependeu. Não queria morrer. Não queria matar aqueles pequenos amigos, a sempre adorável professora. Não queria. Queria desinstalar a bomba. Queria acabar com tudo aquilo.

“Professora, me ajude!”, clamou. Lágrimas escorriam por seu rosto infantil e seus dentes de leite revelavam-se numa careta de choro. A professora veio, e quando todos deram conta da situação, aconteceu.

Um clique. Um conectar de fios. E o zunido dos pregos vindo logo após a explosão. Em cada rostinho, congelava-se um último sorriso. Em cada vida, perdia-se um bom amigo. Em cada instante, destruíam mais e mais aquilo que jamais haviam lhes pertencido.

Khaled não morreu como herói. E se o tivesse feito, não saberia. Estaria morto. Homens buscam até mesmo na morte o que não tem valor sequer  na vida.

O homem olhava tudo aquilo de longe. O pequeno cogumelo de fogo, os gritos desesperados, as vinte crianças mortas, junto com aquela mulher mutilada. Tão absolutamente perdidos, o sorriso na face contente e realizada do terrorista.

Khaled era só mais uma criança. Khaled era apenas uma criança.

O terrorista deu às costas para a escola em chamas e saiu, louvando a Alá.

Mas ele sabia da verdade.

Matar em nome de Deus, é fazer d’Ele um terrorista.

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O que foi isso?!

Ok, Douglas, se acalme.

Pessoal, hoje eu vim falar do melhor final de temporada de uma série que já vi em toda a minha (não tão) curta vida. Vamos falar de Grey’s Anatomy.

Como todo escritor, adoro ver coisas que me inspiram. Séries e filmes são a maioria delas. No entanto, existem algumas séries e as séries de verdade. Grey’s Anatomy (junto com Ugly Betty e Glee) é uma dessas “séries de verdade” para mim. Uma série que amadurece a cada temporada, com mais e mais enigmas.

E eis que deu-se o final da sexta temporada de Grey’s Anatomy.

Preciso dizer que vai ter spoilers?

Gente, o que foi o Sr. Clark invadindo o Seattle Grace e atirando em todos os cirurgiões que via pela frente?! Para começar, a coitada da Reed, que era uma das minhas favoritas, abre o episódio com um tiro na cabeça. Pronto, eis que o ar começa a acabar. Eu, sempre acostumado a chegar do cursinho pré-vestibular, fazer um sanduíche e me sentar em frente a TV, tive que baixar desesperadamente o episódio da Internet. Não aguentei.

Se pudesse dizer as coisas que mais marcaram essa temporada, numa lista de dois tópicos, os dois estariam na Season Finale. São eles:

  • A atuação de Chandra Wilson (Miranda Bailey) ao descobrir que os elevadores estavam desligados e o Dr. Percy morreria nos seus braços.
  • Sandra Oh, a minha amada Cristina Yang, operando o Dr. Shepherd com uma arma apontada para sua cabeça.

Pronto. Eis ao que a tensão deste episódio resume-se. Estas atuações mais do que espetaculares, junto com o destaque que a Dra. April Kepner recebeu, fizeram de Grey’s Anatomy minha nova série favorita. De longe, sem dúvidas.

Isso sem falar, é claro, nos diálogos espetaculares de abertura e encerramento.

A vida dos homens é feita de escolhas.  Sim ou não, entrar ou sair, subir ou descer. E também há escolhas que fazem a diferença: amar ou odiar, ser um herói ou ser um covarde, lutar ou desistir… viver ou morrer. […] Uma pena que nem todas estas escolhas dependam de nós.

Não disse? Shonda, a criadora de Grey’s Anatomy, com certeza, acaba de criar um ícone entre as séries.

P.S.: Este post é dedicado à Marcela, que me ensinou que séries médicas são, de fato, as melhores. HAHA.

E para quem quer saber porque um escritor está falando de séries, a resposta é… porque eu quero, o blog é meu. Brincadeira. HAHA. É só que eu quis mostrar que, para quem escreve, a inspiração pode vir de todos os lugares.

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Um belo caos

Pense em mim como a maior das caixas, e a mais colorida delas também. Mas ainda quadrada, normal, plenamente tocável, inacreditavelmente frágil. Você escolheu abrir a caixa, certo? O que você encontra? Caos.
Você observa aquela bagunça inacreditável. Fios emaranhados, penduricalhos e outros objetos pendendo dentro daquele espaço quadrangular. Você tem duas opções. Corre ou fica, e tenta entender o que diabos está acontecendo ali dentro.
Vale ressaltar que menos de 10% ficam.
Ao começar a encarar aquela imensidão de objetos sem nexo algum, você começa a ver algum sentido. A organização desorganizada, os espaços planejados, as cores desbotadas. Talvez tudo tenha um sentido, mas você ainda não sabe qual é. fsdf
No entanto, conforme você vai ficando, acomodando-se com aquela bagunça infernal, você percebe que realmente há uma ordem no meio de tudo aquilo. Uma ordem esquisita, mas ainda assim, uma ordem. Você acostuma-se aos poucos, entendendo passo a passo daquela brincadeira estranha.
E chega um dia, que você entende que tudo ali tem uma ordem. Cada fio remete a uma história, cada brinquedo a uma saudade, cada espaço a uma vitória. Então você se vê impossivelmente envolto por aqueles fios infinitos, por aqueles espaços instigantes… você se encontra inacreditavelmente preso ao interior daquela caixa qualquer.
E você fica, fica, fica… e quando percebe, já é um amigo, um companheiro, uma mágoa, a voz de um corpo inteiro.
Bem vindo ao meu mundo, volte sempre. Ou não.
Embora eu esteja sempre aqui, não conte comigo como um amigo que só serve de encosto. Eu nasci para fazer mais, para dizer que, na verdade, eu amo você mais que tudo, e, embora não pareça, você é alguém sortudo.
Tchau, até mais. Você encontra aqui o início de um amigo que não tem fim.
E eu gosto de pizza, aliás.

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Poeira das Estrelas

 A verdade é que ninguém sabe o que acontecerá após a próxima inspiração, após o próximo pensamento. Cada segundo é uma cápsula isolada de terror e desconhecimento. O futuro nada mais é do que a incógnita que movimenta nossas pacatas vidas numa suposta rotina repleta de nexo e sentido.

E foi numa destas cápsulas de terror e desconhecimento em que se encontravam aquela jovem mãe e a pequena Katherine, há pouco perdendo sua dentição mais básica.

― É um assalto.

E foi assim que iniciou-se aquela sequência de acontecimentos que culminaria com aquele sangue infantil respingando sobre o sobretudo do jovem Ian. A pistola alternava entre as têmporas de mãe e filha, o cinto que não soltava-se, a porta que não funcionava corretamente. É assim que entremeiam-se as maiores tragédias: com os mais banais acontecimentos.

Quando a tensão atingiu níveis absolutamente perigosos para aquela situação, a pistola disparou. O estampido perdeu-se rapidamente sobre Seattle, tomada por aquela chuva primaveril noturna. O grito da mãe, no entanto, perpetuar-se-ia até os últimos dias de vida do jovem Ian, como a maior mostra de amor e desespero que ele já havia presenciado e causado. Ele havia matado a jovem Katherine, ofuscando para sempre aquele sorriso inocente, que sumiria para sempre da vida de todos que eram ligados àquela estrelinha em particular. Katherine. Morta.

O homicida parado de tensão. Seu corpo rijo, imóvel em meio àquela situação. Não deveria ter atirado, não deveria ter disparado aquele gatilho que terminaria com o corpo da criança pendendo miseravelmente para fora do carro. Nunca havia matado. Não poderia ter matado. Mas matou. O que realmente conta é aquilo que fazemos, não o que pensamos em fazer. A humanidade baseia-se no presente, embora seus membros inferiores sempre estejam um pouco no futuro.

E Ian McKellan foi preso.

A prisão modorrenta, mescla de terror, descontentamento, falta de liberdade, tensão e o riso perdido daquela criança, este martelando dentro da cabeça do jovem.

O espelho da cela de Ian mostrava o que ele estava acostumado há ver fazia mais de vinte anos. Os cabelos loiros desgrenhados, os olhos verdes, agora vermelhos de tanto chorar, o corpo magérrimo, as mãos ossudas. Mas, mais no fundo, muito mais no fundo, Ian era apenas tristeza.

Alguns meses se passaram antes que Ian se sentasse no banco dos réus. Cabeças meneavam, olhos encaravam-no sem qualquer pudor, bocas resmungavam ofensas. E o veredito foi plenamente compassado com o bater do martelo do meritíssimo. Prisão perpétua. Ian não queria isto, mas era o que merecia, ele sabia.

Um ano se passou desde o julgamento, e Ian cumpre sua rotina infeliz e repetitiva de presidiário. Acordar com o cassetete batendo contra as grades da cela, os gritos dos presos, as risadas que ele não compartilhava. Naquele dia, chovia tanto quanto choveu na morte da pequena Katherine.

No entanto, aquele dia foi diferente. Foi especial. Ao invés de juntar-se aos outros presidiários com os quais Ian não conversava, o rapaz foi convidado a ir até a sala de reuniões da penitenciária. Algo estava prestes a acontecer, ele sabia.

Um homem de terno preto de tweed o recebeu, apertando sua mão enquanto sorria. Ian sentou-se, as algemas machucando seus tornozelos e punhos. A chuva chicoteava o vidro daquela sala, o homem sorrindo dentro dela, olhando para o macacão alaranjado de Ian.

Resume-se a conversa à apenas poucas sentenças.

― Tenho uma proposta ― o homem sorriu, sabendo que Ian aceitaria.

O réu apenas murmurou para que o homem prosseguisse.

― Você se livra da prisão perpétua se topar ser voluntário na Missão Virgo.

Ian murmurou palavras desconexas, resmungando que não sabia o que era tal missão. O homem explicou, apresentando-se como o diretor de tal missão.

― É uma missão que não pode ser do conhecimento do público. Você será treinado por dois anos dentro dos locais designados pela NASA, saindo desta prisão infernal imediatamente. Sua missão será embarcar na nossa nave e, em trinta anos, percorrer todo o Sistema Solar coletando informações.

A boca de Ian escancarou-se.

― Você quer que… eu saia do Sistema Solar?

― E volte, por favor ― ele mesmo riu de sua piadinha infame. ― Você será lembrado pelos oficiais como o primeiro homem a sair do Sistema Solar.

Ian não queria reconhecimento, queria liberdade, ainda que fosse a liberdade com culpa.

― Em trinta anos estarei de volta, e livre?

― Exato.

Ian topou.

De madrugada, enquanto todos os outros presos dormiam, uma van saiu de dentro do presídio com um passageiro clandestino, embora autorizado pelos mais altos comandos daquele país. Ian mantinha na cabeça as distâncias incomensuráveis as quais percorreria durante aquelas três décadas.

Mas antes, veio o treinamento. Durante dois longos anos, Ian treinou. Reparos fictícios na nave imersa na piscina, corridas intermináveis na esteira, horas e horas estudando e treinando para aquilo que lhe daria a liberdade.

A nave Virgo A foi lançada assim que o treinamento do homem estava concluído. Não havia imprensa, não havia visitantes. Era algo secreto, e assim permaneceria.

Enquanto a nave rumava para muito além da camada de ozônio, Ian sentia todo seu corpo ser empurrado contra a poltrona horizontal na qual estava sentado. Seu coração batia freneticamente dentro de seu peito, amedrontado, em êxtase.

E, de repente, tudo era negro. A Terra havia tornado-se apenas uma bola gigantesca rodando em seu próprio eixo, abaixo dele. Estrelas brilhantes enchiam seu campo de visão, o sol, a mais próxima de todas elas, brilhando atrás dele, naquele espetáculo acidental que havia se formado bilhões e bilhões de anos atrás.

A viagem estava começando. O primeiro destino era Marte.

As dezenas de milhões de quilômetros que percorreria a partir de agora iniciavam-se rapidamente naquela nave absolutamente surreal. Era como se fosse um minúsculo ponto branco rumando para lugar nenhum, ao mesmo tempo em que visava todos os lugares.

Alguns meses depois, o campo de visão de Ian foi preenchido com a imagem que só havia visto em livros de astronomia. O planeta vermelho. Comparativamente menor do que a Terra, no entanto, tão absolutamente fantástico, tão impossivelmente perto.

Iniciou os estudos.

Ligou todos os aparelhos indicados enquanto flutuava pela gravidade zero da nave, sua roupa branca mesclando-se com as paredes da mesma cor. A nave começou a receber a comunicação terrestre.

― Ian, está me ouvindo? ― era o diretor do projeto, o que havia tirado Ian da cadeia, anos atrás.

― Sim, senhor ― respondeu o homem enquanto ajeitava alguns botões.

― Se lembre de ativar o receptor magnético das sondas, precisamos atualizar estes dados ― lembrou o homem.

― Receptor magnético ativado.

E durante alguns dias, o planeta carmim coloriu a visão de Ian.

Quando finalmente voltou a ligar os propulsores da nave, como o indicado pelo diretor, sabia que passaria por um dos maiores desafios da viagem inteira. O cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter.

Ian levou um susto quando ouviu aquela voz feminina na nave.

― Você está preparado, Ian? ― disse a voz.

Ian procurou por toda a nave para ver da onde o som havia partido. Não havia origem. Ele era apenas o destino.

― Quem disse isso?! ― ele estava assustado.

― Sou eu, Virgo, sua companheira de viagem ― a voz mecânica sorriu, revelando ser a própria nave.

― Por que você só falou agora? Estamos aqui há vários meses! ― ele olhava furtivamente para uma caixa de som num dos cantos da nave gigantesca movida à energia solar.

― Fui programada para a auto-ativação quando estivéssemos próximos do cinturão de asteróides. Não desejamos que você fique nervoso ― ela replicou, um risinho metálico ecoando pela voz artificial.

― Você conversará comigo pelo resto da viagem, então?

― Tenha certeza que sim, ao não ser que você deseje me desativar, apertando o botão 54C no painel de controle ― ela explicou, Ian percebendo que não havia notado a presença do botão desde o início da viagem. ― Me permite um comentário?

― Claro.

― Limpe seu banheiro. O odor é desagradável.

Ian riu e a voz não entendeu a demonstração daquela emoção. Talvez ela não entendesse nenhuma emoção, era apenas uma máquina, afinal.

No final, a viagem prosseguiu normalmente após o cinturão de asteróides. Não houve demasiados problemas, se não uma ou duas antenas danificadas. Ian arrumou-as rapidamente.

O que surgiu à frente de Ian a partir de agora era mais do que assustadoramente belo; era a prova cabal de que seres humanos não são absolutamente nada. Júpiter enchia seus olhos de lágrimas, o tamanho mais do que descomunal, fazendo a Terra parecer uma minúscula bolinha de golfe. Sua coloração que tendia para o marrom, suas luas orbitando seu planeta hospedeiro como filhos orgulhosos de um pai. Júpiter era como a porta de abertura para a filosofia de Ian. Ele começara a perguntar de que valia tantas pessoas absolutamente dispensáveis acharem que valem tanto, se o Universo é tão absolutamente maior; alheio à suas preocupações terráqueas?

― Seres humanos são engraçados ― disse Virgo enquanto Ian tinha os olhos repletos de lágrimas, contemplando o maior planeta do Sistema Solar.

Ian não poderia concordar mais.

Alguns anos de viagem já haviam completado-se quando o próximo planeta começou a surgir no horizonte da nave alva. Virgo começou a dar os dados que Ian necessitava.

― Saturno. O segundo maior planeta do Sistema Solar. Sua faixa de aneis…

Mais alguns dias de viagem pela imensidão inócua do espaço sideral bastaram para que, mais uma vez, Ian desse conta de sua insignificância.

― Deseja ver algo? ― perguntou Virgo, Ian começando a contemplar o planeta enquanto ligava os aparelhos necessários para a observação e estudo do mesmo.

― Claro ― respondeu, sem desviar o olhar que alternava entre os botões e o planeta.

A tela de hologramas surgiu à frente de Ian.

― Tamanho comparativo da Terra e Saturno, por Virgo ― se auto-anunciou a nave.

Um filme começou a ser exibido com uma música de fundo pela nave. A Terra era vista ao vivo, enquanto Saturno, idem, estava incomensuravelmente mais próximo. A Terra não era nada. Nunca passaria de uma bolinha azul, com pessoas acreditando que são mais do que realmente são.

A imensidão de Saturno enchia os olhos de Ian.

Mais meia década bastou para que Urano estivesse tão próximo quanto Saturno esteve um dia. E depois, Netuno, que encerrava os planetas. Alguns fiapos de brancura surgiam no meio do cabelo de Ian quando ele finalmente aproximou-se de Netuno, sua coloração azulada remetendo irremediavelmente ao planeta que Ian havia abandonado.

A nave recebeu uma comunicação da Terra. A mensagem havia partido do planeta dias atrás, no entanto, chegara apenas agora, terminando de percorrer a distância que separava Ian do resto do mundo.

“ Ian”, começou a mensagem, “como você sabe e espera, dissemos à você que a viagem toda demoraria trinta anos para acontecer, até seu retorno para a Terra. É com imensa tristeza que tenho de admitir que faltamos com a verdade para com você, meu caro observador astronômico. Venho dizer a você, que, em verdade, o combustível e o alimento da nave se esgotará após sua passagem por Plutão, nos confins de nosso Sistema. Acredite, todos nós sofremos por você. Adeus.”

A voz do diretor parecia pesarosa. O mesmo homem que havia libertado Ian, anos atrás, agora o condenara à morte.

As pernas de Ian tremeram e ele caiu, de joelhos. As lágrimas rolavam por sua face e caíam sobre o chão metálico da nave que ele odiava com todas as suas forças. Seu peito inflava enquanto os soluços crueis rompiam-lhe pela boca. Seus olhos ardiam, a vermelhidão consumindo-os. Ele estava tomado pelo desterro.

Dois dias se passaram antes que Ian voltasse a alimentar-se, os dois dias passados jogados no chão da nave, absolutamente silencioso, Virgo entendendo a dor do companheiro de muitos anos.

Depois de muito tempo, quando a nave finalmente passou por Plutão, Ian tomou uma decisão.

― Adeus, Virgo ― despediu-se ele.

― Adeus.

E apertou o botão 54C, silenciando a voz que havia ouvido por todos aqueles anos.

Correndo até o painel de controle da nave, desligou todas as funções disponíveis. A nave foi tomada pela escuridão. Voltou para a cadeira onde havia sentado muitas e muitas vezes para estudar e contemplar os planetas. Sentado ali, no escuro absoluto, olhou para frente.

Viu estrelas distantes, supernovas inalcançáveis e nebulosas gigantes. Mas, acima de tudo, Ian viu a faixa final de sua insignificância.

Os pontos dourados pareciam estar sobre um veludo caríssimo à frente dele.

Foi então, que Ian verdadeiramente pensou.

Pensou naquele planeta que havia abandonado décadas atrás, quando seu cabelo ainda coloria-se de juventude, quando sua face não envergava-se de rugas. Pensou com carinho, pensou com ódio, pensou com amor. Também pensou na jovem Katherine, percebendo que, embora o crime ainda lhe doesse por todo o corpo, ele não era significativo.

Pensou também em todos os líderes. Religiosos, políticos. Pensou em como todos tratavam com imenso respeito quem não o merecia, e destratavam os que mais faziam por merecer. Todos os líderes, absolutamente crentes de que desempenhavam um papel fundamental para toda essa imensidão negra que Ian fitava. Todos átimos de consciência, patéticos, resignados em sua própria condição de megalomaníacos.

Também pensou na vida. Em como ela é frágil, e ao mesmo tempo, forte. Frágil de pensamento, forte pela sobrevivência. Finalmente entendeu filósofos que havia taxado de loucos durante toda sua vida. Entendeu o que insignificância queria dizer.

Todos perdidos naquele planeta repleto de água, todos pensando serem importantes o bastante. Todos querendo ser. Todos querendo ter. Todos simplesmente acreditando que são.

Ian não chorava.

Tudo resumia-se à vida daqueles seres que acreditavam descender de uma linhagem absolutamente divinizada, quando em verdade eram apenas primatas cujos cérebros bem desenvolvidos os faziam pensar que tinham uma profunda ligação com algo aparentemente inexistente.

Deus.

Deus era o que Ian via. Ele sabia disto. Deus era toda essa imensidão universal na qual estávamos inseridos. Pessoas buscavam na escuridão um Deus que poderiam achar através da luz da contemplação.

Conhecimento.

Foi então que Ian parou por completo, silencioso. Percebeu que não poderia fazer mais nada, e estava bem com isto. Ian não calou sua boca, mas calou também o seu ser, sua consciência, que o fazia ser tão importante ao mesmo tempo em que era tão dispensável. Katherine.

Ian deu-se conta do panorama geral de sua morte.

Ele percebeu que, a partir de agora, simplesmente respiraria. Simplesmente não faria nada. Olhando para a imensidão incalculável à sua frente, Ian deu-se conta de que perder-se-ia no meio de estrelas, nebulosas, supernovas, buracos negros, galáxias, dimensões.

Ian iria tornar-se o que sempre havia sido. Rumando sem destino para a imensidão negra e latente à sua frente, Ian iria tornar-se uma imutável e eterna poeira das estrelas. 

Conto produzido para um concurso. Todos os direitos autorais são reservados exclusivamente ao autor.

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Quem aqui assiste Passione?

Bom, faltando no cursinho, consegui assistir os dois primeiros capítulos de Passione, novela do meu amigão (tálouco?) Silvio de Abreu. HAHA.

E o que posso dizer é: VICIEI IMEDIATAMENTE.

A novela em si valeria a pena por si só, se apenas tivesse a Fernanda Montenegro. Mas aí Silvio de Abreu é tão inteligente que misturou Fernanda Montenegro à Toscana. Pronto. Meus olhos até enchem de lágrimas.

Nunca fui muito noveleiro, com exceção de O Clone, que passou quando eu ainda era uma pequena criança. HAHA. Mas, desde então, nenhuma novela me chamou tanto a atenção, até que… Passione!

Foi passione a primeira vista. O elenco, as paisagens, tudo, tudo, tudo.

Recomendo, com certeza.

E para terminar, uma pequena homenagem à diva mor da televisão brasileira, junto com Christiane Torloni(e?)!

Promessa é dívida!

Gente, eu sei que tinha prometido que ia postar ontem sobre o que estava na principal avenida daqui da cidade, mas acontece que… coisas aconteceram. HAHA! Zueira, é que ontem foi um dia muito corrido mesmo. Se lembram quando eu falei que por mais que quiséssemos nos desejar apenas à literatura, isso demora um pouco? Pois bem…

Mas eu vim hoje mostrar. É o que importa. Ah, e perdoem a qualidade da foto, foi feita com celular, no momento de emoção. HAHA!

Não é demais? HAHA! Meu colégio é o melhor.

Preciso dizer que fiquei no ápice da felicidade possível para um ser humano?

Beijinhos, beijinhos, tchau, tchau. [/Teletubbies.

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Quando você pensa que é só mais um… Parte 2

Vou confessar. Ontem eu ia fazer um post desesperado dizendo como meu dia havia sido horrível. HAHA. Mas a vida é uma coisa engraçada, e suas filosofias podem ajudar a transformar um bad day, num verdadeiro very very very happy day/night.

Coisas que só acontecem antes da meia-noite.

Sempre tive uma filosofia: Se seu dia foi uma porcaria, faça alguém feliz. Você ficará feliz por consequência. Pensei: “Que se dane. Foi tudo ruim mesmo”, e peguei meus últimos cinco reais de crédito de celular de fiz uma “boa ação”.

Liguei para todas as livrarias que tinha o número. Nobel, Cultura, Curitiba, Mundo do Livro, etc, etc… Encomendei o livro “Nove Minutos com Blanda“, da talentosíssima Fernanda França. Quis ajudar, sabe. Eu visito o blog dela e sempre vejo ela dizendo como é difícil ser autor nacional (como se eu não soubesse. HAHA).

Aí fui lá no blog dela (www.fernandafranca.com.br/blog) e comentei o que tinha feito. Pouquíssimos minutos depois eu aperto F5 para atualizar a página e… BANG! Vejam o que encontro:

UM POST SOBRE MEU COMENTÁRIO!

Eram exatas onze horas e cinquenta e sete minutos, faltando três minutos para o fim daquele dia terrível, quando de repente tudo muda e eu vou dormir mais feliz que Bob Esponja depois de brincar com o Patrick.

Coisas que só acontecem antes da meia-noite.

AH, antes que me esqueça. Amanhã vou mostrar para vocês o que está aqui, na principal avenida da cidade. Sim, eu moro numa cidade que tem uma avenida principal. HAHA

Até amanhã, e um beijo especial para a Fernanda França, que me fez feliz. HAHA

Beijos leitores menos comentadores de toda a blogosfera. (Já comentei que adoro essa palavra? Blogosfera, blogosfera, blogosfera…)

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E os sonhos…

Bom, este post vai ser um que venho agendando por dias e dias. Na verdade, desde que eu comecei o blog eu queria fazer ele, mas tudo bem.

Vou falar sobre os meus sonhos, sobre o que quero pra mim, em relação à minha “carreira” literária.

Vamos ao mais primordial deles. A cidade que mais me inspira, cujas curvas e agito são minha fonte de desejo e motivação. HAHA. Vamos falar de New York!

Sabe, meu sonho sempre foi ter um apartamento nessa cidade onde o espaço é disputado à tapas. Sabe, poder morar ali, fazer tudo nessa cidade que me inspira. Vou confessar! Minhas duas maiores motivções quando escrevo:

  • Agradar aos meus leitores/fãs
  • Pensar que o que estou escrevendo pode ser bom o bastante para ser vendido para uma editora, e, talvez, me dar dinheiro o bastante para iniciar uma carreira e morar em Nova York.

Sonho? Demais. E é por isso que vivo.

Logo depois, mas não muito menos importante: ser um escritor na Starbucks!

Essa imagem contem alguns errinhos, como lápis e papel, quando só escrevo pelo Word, mas tudo bem. Vamos ao que importa. Eu escrevo me imaginando dentro de um Starbucks, num dia muito frio, repleto de neve, enquanto eu estou muito bem agasalhadinho e dentro de um Starbucks repleto de murmúrios em inglês. Confesso que nunca ao menos cheguei perto de um Starbucks, mas sou movido pelo desejo de um dia poder ao menos tocar num daqueles copos plásticos de canudo verde.

E por terceiro: sentir neve!

Sério. Sentir aquela coisa gelada na pele, experimentar para saber o sabor, se tiver, é claro. HAHA. Sempre escrevo muitas coisas com neve, sendo que nunca toquei nelas. Coisas que só a Internet fazem acontecer.

Participar de uma noite de autógrafos!

Sim, ter um monte de gente esperando para conseguir um livro que escrevi com um rabisco carinhoso. Sonho desesperadamente com isso. Qual o escritor que não sonha? Ser (re)conhecido por algo de bom que fez. Ver que seu trabalho não é apenas uma mera ilustração de páginas on-line ou do Word? Sonhos, sonhos, sonhos…

Mas, antes de todos eles, o mais primordial: publicar meus livros!

É aqui que todos os outros sonhos se iniciam. É a negação do que as pessoas (principalmente meus pais, HAHA) insistem em me dizer; que escrever livros não me levará a lugar algum, que é apenas uma perca de tempo.

Se eu sonho? Muito.

E são estes sonhos que são o combustível para cada letra digitada, cada frase montada, cada obra iniciada. São os sonhos que me movimentam para continuar buscando aquilo que intensifica-se mais e mais a cada obra começada: a vontade de vencer.

Sonhos, sonhos, sonhos… são eles que vão me levar para terras que as pessoas me disseram que eu nunca iria conhecer.

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Desafios de ser um escritor

Hoje o post é dedicado aos meus colegas de hobby/profissão: a escrita.

Bom, bem mais do que falta de inspiração, revisão, leitura e imaginação, muitos outros desafios rondam essa profissão perigosa. Então, eu, que já percorro essa estrada a algum tempinho (quase 6 anos HAHA), vou dar algumas dicas que podem muito ajudar quem está começando, ou quem já é profissional. Porque dica nunca é demais. Filosofia própria, essa.

 

1) Falta de Inspiração. O que fazer?!

Respire. Você não é o primeiro nem o último a ter uma crise “inspiracional”. Eu mesmo já tive uma que durou 5 meses. Rachel de Queiroz só lançava os livros dela de 15 em 15 anos. É para se pensar. HAHA.

Então, não há nada de errado em ficar alguns dias ou semanas sem escrever. É até bom, porque quando você volta, quer escrever um monte! Enquanto isso, veja filmes, leia livros que você goste, enfim, divirta-se. Porque quando você menos esperar, está escrevendo seu novo capítulo.

 

2) Ninguém começa famoso!

Essa semana eu dei um autógrafo. Sério. Vocês conseguem acreditar nisso? (Dei porque fiquei em segundo lugar no Concurso Cultural Jorge Amado, lá em Curitiba HAHAH). Vocês podem pensar: “Afe! Depois de seis anos escrevendo acha muito dar um autógrafo?” E eu respondo: Acho muito sim. Todo escritor quer ser conhecido, mas bem poucos sabem ser determinados e pacientes o bastante para isso. Eu, por exemplo, ainda estou atrás de uma editora!

É como o título disse: ninguém começa famoso! Você começa só com você e seu computador (ou, caso queira, pode postar seus textos na Nossos Romances Adolescentes), não há ninguém que vai jogar rosas em você e gritar: LINDO! CONTINUE!

É chato, eu sei, mas é a vida. Se nem meus pais me apoiaram, sinta-se vitorioso se sua mãe/pai lhe disser: Filho, parabéns. HAHA!

 

3) Poucas pessoas podem realmente viver para a literatura!

Acho que essa é uma das coisas mais chatas que tive de aprender. Meu sonho é passar um dia inteiro escrevendo, escrevendo, escrevendo. Mas como? Tenho escola, tenho os trabalhos para fazer, tarefas, cursinho pré-vestibular… Ou seja, não se sinta mal se você não puder viver exclusivamente escrevendo… Quem sabe depois que você publicar algo?

 

4) Editoras não são bacanas com você!

Triste, eu sei. Mas todos que já enviaram um original para uma editora sabem do que eu estou falando. Muitas nem ao menos se dão ao trabalho de dizer: “Desculpe, não podemos publicar seu livro.” Simplesmente ficam quietas.

Mais uma vez, o negócio é perseverar. Quem acredita sempre alcança, já dizia Tia Neguinha.

E, claro, tentar melhorar seu livro. Agora, para terminar:

 

5) Revisão é a coisa mais necessariamente chata do planeta!

Ter talento é 60% do potencial de um escritor, a revisão são os outros 40%. Sério. Depois da revisão, aquela enxugada básica, seu livro fica simplesmente outro. Corrigir falhas de continuidade, ortografia, gramática, semântica, e todas as outras categorias que só uma velha e chata aula de Língua Portuguesa pode lhe ensinar.

Revisar é melhorar. Revisão é necessária. Infelizmente.

Basicamente, é isso.

De resto, enquanto você perseguir esse seu sonho de ser um grande escritor ou escritora, você vai aprender todas as manhas que essa profissão tem. Mas a maior delas, sem dúvida é: leitura. Todo excelente escritor é um leitor melhor ainda!

Um beijo e, quem sabe, nos vemos numa livraria!

Sim, eu ainda sonho com a publicação de Nebulosa!

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Sol Manchado de Sangue

A verdade é que só damos valor à vida quando estamos prestes a perdê-la. Só então nos damos conta de toda a imensidão de emoções, pensamentos e sentimentos que circundam toda a experiência que o verbo Viver significa.

            E ali estava Vittoria, atada àquela cadeira de carvalho, os pés completamente imóveis, a boca plenamente silenciosa, o sorriso totalmente apagado. Na frente de sua testa, uma pistola. E atrás dela, um homem. Um homem que, no indicador, detinha poder suficiente para fazer com que Vittoria começasse a valorizar mais sua pacata vida.

            ― Eu não tenho dinheiro ― ela disse, os olhos castanhos lacrimejando como grandes e desesperadas cachoeiras.

            O homem riu. As pessoas pensavam que tudo resumia-se à cédulas coloridas, sem significado algum se não submeter os mais pobres, exaltar os mais ricos. A humanidade temia pedaços de papel. A humanidade quer pedaços de papel.

            ― Eu não quero dinheiro ― respondeu, a gargalhada incrustada em sua voz aveludada.

            ― Então o que você quer?

            O homem não respondeu. Nem ele mesmo sabia o que queria. Sabia apenas que queria algo. Talvez quisesse descontar as frustrações de seu dia entediante, ou talvez apenas quisesse aterrorizar pessoas que sequestrava aleatoriamente nas ruas de Roma. Aquela mulher já devia ser a nona, provavelmente a décima, a ser enfiada rapidamente dentro daquele sótão espaçoso naquela casa qualquer.

            ― Eu quero saber o que eu quero.

            Lágrimas cessaram. A confusão assume seu lugar de direito no rosto de Vittoria.

            ― Talvez eu queira ter controle sobre o incontrolável. É. Eu quero isso.

            A mulher ainda não havia entendido, os grãos de poeira pairando contra o sol crepuscular.

            ― Eu desejo controlar o que ninguém consegue. Eu quero controlar quando você vai morrer, por exemplo.

            ― Maníaco! Socorro!

            ― Não, não, não. Não confunda. Maníacos são loucos, desvairados. Eu apenas sou um filósofo frustrado pelo fato de as pessoas estarem ocupadas demais para me ouvirem, ao não ser que elas estejam com uma arma na cabeça e com a vida em perigo. Repentinamente, tudo pode esperar até que elas me ouçam completamente. Seres humanos são engraçados.

            Ela não respondeu.

            ― Adeus, Vittoria.

            As lágrimas brotaram nos olhos grandes da mulher.

            ― Não. Não. Não!

            Um tiro cortou o ar e atingiu o olho direito daquela jovem mulher, atada naquele sótão qualquer. Ela seria apenas mais uma a cumprir rituais que não lhe perguntaram se desejava cumprir. Seres humanos agem por imitação, como primatas instintivos, perdidos em sua própria falta de inteligência.

            E o sol se pôs, tingindo o sol daquele vermelho habitual. Era como se o sol estivesse manchado de sangue.

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