Sol Manchado de Sangue

A verdade é que só damos valor à vida quando estamos prestes a perdê-la. Só então nos damos conta de toda a imensidão de emoções, pensamentos e sentimentos que circundam toda a experiência que o verbo Viver significa.

            E ali estava Vittoria, atada àquela cadeira de carvalho, os pés completamente imóveis, a boca plenamente silenciosa, o sorriso totalmente apagado. Na frente de sua testa, uma pistola. E atrás dela, um homem. Um homem que, no indicador, detinha poder suficiente para fazer com que Vittoria começasse a valorizar mais sua pacata vida.

            ― Eu não tenho dinheiro ― ela disse, os olhos castanhos lacrimejando como grandes e desesperadas cachoeiras.

            O homem riu. As pessoas pensavam que tudo resumia-se à cédulas coloridas, sem significado algum se não submeter os mais pobres, exaltar os mais ricos. A humanidade temia pedaços de papel. A humanidade quer pedaços de papel.

            ― Eu não quero dinheiro ― respondeu, a gargalhada incrustada em sua voz aveludada.

            ― Então o que você quer?

            O homem não respondeu. Nem ele mesmo sabia o que queria. Sabia apenas que queria algo. Talvez quisesse descontar as frustrações de seu dia entediante, ou talvez apenas quisesse aterrorizar pessoas que sequestrava aleatoriamente nas ruas de Roma. Aquela mulher já devia ser a nona, provavelmente a décima, a ser enfiada rapidamente dentro daquele sótão espaçoso naquela casa qualquer.

            ― Eu quero saber o que eu quero.

            Lágrimas cessaram. A confusão assume seu lugar de direito no rosto de Vittoria.

            ― Talvez eu queira ter controle sobre o incontrolável. É. Eu quero isso.

            A mulher ainda não havia entendido, os grãos de poeira pairando contra o sol crepuscular.

            ― Eu desejo controlar o que ninguém consegue. Eu quero controlar quando você vai morrer, por exemplo.

            ― Maníaco! Socorro!

            ― Não, não, não. Não confunda. Maníacos são loucos, desvairados. Eu apenas sou um filósofo frustrado pelo fato de as pessoas estarem ocupadas demais para me ouvirem, ao não ser que elas estejam com uma arma na cabeça e com a vida em perigo. Repentinamente, tudo pode esperar até que elas me ouçam completamente. Seres humanos são engraçados.

            Ela não respondeu.

            ― Adeus, Vittoria.

            As lágrimas brotaram nos olhos grandes da mulher.

            ― Não. Não. Não!

            Um tiro cortou o ar e atingiu o olho direito daquela jovem mulher, atada naquele sótão qualquer. Ela seria apenas mais uma a cumprir rituais que não lhe perguntaram se desejava cumprir. Seres humanos agem por imitação, como primatas instintivos, perdidos em sua própria falta de inteligência.

            E o sol se pôs, tingindo o sol daquele vermelho habitual. Era como se o sol estivesse manchado de sangue.

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3 pensamentos sobre “Sol Manchado de Sangue

  1. luh disse:

    Esse post é o primeiro desse conto? eu descobri esse blog há pouco tempo…

  2. luh disse:

    Ah,seria legal se tivesse uma pequena continuação,quem sabe.. mas tá bom assim,como vc mesmo disse é um post único,um conto.

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