Poeira das Estrelas

 A verdade é que ninguém sabe o que acontecerá após a próxima inspiração, após o próximo pensamento. Cada segundo é uma cápsula isolada de terror e desconhecimento. O futuro nada mais é do que a incógnita que movimenta nossas pacatas vidas numa suposta rotina repleta de nexo e sentido.

E foi numa destas cápsulas de terror e desconhecimento em que se encontravam aquela jovem mãe e a pequena Katherine, há pouco perdendo sua dentição mais básica.

― É um assalto.

E foi assim que iniciou-se aquela sequência de acontecimentos que culminaria com aquele sangue infantil respingando sobre o sobretudo do jovem Ian. A pistola alternava entre as têmporas de mãe e filha, o cinto que não soltava-se, a porta que não funcionava corretamente. É assim que entremeiam-se as maiores tragédias: com os mais banais acontecimentos.

Quando a tensão atingiu níveis absolutamente perigosos para aquela situação, a pistola disparou. O estampido perdeu-se rapidamente sobre Seattle, tomada por aquela chuva primaveril noturna. O grito da mãe, no entanto, perpetuar-se-ia até os últimos dias de vida do jovem Ian, como a maior mostra de amor e desespero que ele já havia presenciado e causado. Ele havia matado a jovem Katherine, ofuscando para sempre aquele sorriso inocente, que sumiria para sempre da vida de todos que eram ligados àquela estrelinha em particular. Katherine. Morta.

O homicida parado de tensão. Seu corpo rijo, imóvel em meio àquela situação. Não deveria ter atirado, não deveria ter disparado aquele gatilho que terminaria com o corpo da criança pendendo miseravelmente para fora do carro. Nunca havia matado. Não poderia ter matado. Mas matou. O que realmente conta é aquilo que fazemos, não o que pensamos em fazer. A humanidade baseia-se no presente, embora seus membros inferiores sempre estejam um pouco no futuro.

E Ian McKellan foi preso.

A prisão modorrenta, mescla de terror, descontentamento, falta de liberdade, tensão e o riso perdido daquela criança, este martelando dentro da cabeça do jovem.

O espelho da cela de Ian mostrava o que ele estava acostumado há ver fazia mais de vinte anos. Os cabelos loiros desgrenhados, os olhos verdes, agora vermelhos de tanto chorar, o corpo magérrimo, as mãos ossudas. Mas, mais no fundo, muito mais no fundo, Ian era apenas tristeza.

Alguns meses se passaram antes que Ian se sentasse no banco dos réus. Cabeças meneavam, olhos encaravam-no sem qualquer pudor, bocas resmungavam ofensas. E o veredito foi plenamente compassado com o bater do martelo do meritíssimo. Prisão perpétua. Ian não queria isto, mas era o que merecia, ele sabia.

Um ano se passou desde o julgamento, e Ian cumpre sua rotina infeliz e repetitiva de presidiário. Acordar com o cassetete batendo contra as grades da cela, os gritos dos presos, as risadas que ele não compartilhava. Naquele dia, chovia tanto quanto choveu na morte da pequena Katherine.

No entanto, aquele dia foi diferente. Foi especial. Ao invés de juntar-se aos outros presidiários com os quais Ian não conversava, o rapaz foi convidado a ir até a sala de reuniões da penitenciária. Algo estava prestes a acontecer, ele sabia.

Um homem de terno preto de tweed o recebeu, apertando sua mão enquanto sorria. Ian sentou-se, as algemas machucando seus tornozelos e punhos. A chuva chicoteava o vidro daquela sala, o homem sorrindo dentro dela, olhando para o macacão alaranjado de Ian.

Resume-se a conversa à apenas poucas sentenças.

― Tenho uma proposta ― o homem sorriu, sabendo que Ian aceitaria.

O réu apenas murmurou para que o homem prosseguisse.

― Você se livra da prisão perpétua se topar ser voluntário na Missão Virgo.

Ian murmurou palavras desconexas, resmungando que não sabia o que era tal missão. O homem explicou, apresentando-se como o diretor de tal missão.

― É uma missão que não pode ser do conhecimento do público. Você será treinado por dois anos dentro dos locais designados pela NASA, saindo desta prisão infernal imediatamente. Sua missão será embarcar na nossa nave e, em trinta anos, percorrer todo o Sistema Solar coletando informações.

A boca de Ian escancarou-se.

― Você quer que… eu saia do Sistema Solar?

― E volte, por favor ― ele mesmo riu de sua piadinha infame. ― Você será lembrado pelos oficiais como o primeiro homem a sair do Sistema Solar.

Ian não queria reconhecimento, queria liberdade, ainda que fosse a liberdade com culpa.

― Em trinta anos estarei de volta, e livre?

― Exato.

Ian topou.

De madrugada, enquanto todos os outros presos dormiam, uma van saiu de dentro do presídio com um passageiro clandestino, embora autorizado pelos mais altos comandos daquele país. Ian mantinha na cabeça as distâncias incomensuráveis as quais percorreria durante aquelas três décadas.

Mas antes, veio o treinamento. Durante dois longos anos, Ian treinou. Reparos fictícios na nave imersa na piscina, corridas intermináveis na esteira, horas e horas estudando e treinando para aquilo que lhe daria a liberdade.

A nave Virgo A foi lançada assim que o treinamento do homem estava concluído. Não havia imprensa, não havia visitantes. Era algo secreto, e assim permaneceria.

Enquanto a nave rumava para muito além da camada de ozônio, Ian sentia todo seu corpo ser empurrado contra a poltrona horizontal na qual estava sentado. Seu coração batia freneticamente dentro de seu peito, amedrontado, em êxtase.

E, de repente, tudo era negro. A Terra havia tornado-se apenas uma bola gigantesca rodando em seu próprio eixo, abaixo dele. Estrelas brilhantes enchiam seu campo de visão, o sol, a mais próxima de todas elas, brilhando atrás dele, naquele espetáculo acidental que havia se formado bilhões e bilhões de anos atrás.

A viagem estava começando. O primeiro destino era Marte.

As dezenas de milhões de quilômetros que percorreria a partir de agora iniciavam-se rapidamente naquela nave absolutamente surreal. Era como se fosse um minúsculo ponto branco rumando para lugar nenhum, ao mesmo tempo em que visava todos os lugares.

Alguns meses depois, o campo de visão de Ian foi preenchido com a imagem que só havia visto em livros de astronomia. O planeta vermelho. Comparativamente menor do que a Terra, no entanto, tão absolutamente fantástico, tão impossivelmente perto.

Iniciou os estudos.

Ligou todos os aparelhos indicados enquanto flutuava pela gravidade zero da nave, sua roupa branca mesclando-se com as paredes da mesma cor. A nave começou a receber a comunicação terrestre.

― Ian, está me ouvindo? ― era o diretor do projeto, o que havia tirado Ian da cadeia, anos atrás.

― Sim, senhor ― respondeu o homem enquanto ajeitava alguns botões.

― Se lembre de ativar o receptor magnético das sondas, precisamos atualizar estes dados ― lembrou o homem.

― Receptor magnético ativado.

E durante alguns dias, o planeta carmim coloriu a visão de Ian.

Quando finalmente voltou a ligar os propulsores da nave, como o indicado pelo diretor, sabia que passaria por um dos maiores desafios da viagem inteira. O cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter.

Ian levou um susto quando ouviu aquela voz feminina na nave.

― Você está preparado, Ian? ― disse a voz.

Ian procurou por toda a nave para ver da onde o som havia partido. Não havia origem. Ele era apenas o destino.

― Quem disse isso?! ― ele estava assustado.

― Sou eu, Virgo, sua companheira de viagem ― a voz mecânica sorriu, revelando ser a própria nave.

― Por que você só falou agora? Estamos aqui há vários meses! ― ele olhava furtivamente para uma caixa de som num dos cantos da nave gigantesca movida à energia solar.

― Fui programada para a auto-ativação quando estivéssemos próximos do cinturão de asteróides. Não desejamos que você fique nervoso ― ela replicou, um risinho metálico ecoando pela voz artificial.

― Você conversará comigo pelo resto da viagem, então?

― Tenha certeza que sim, ao não ser que você deseje me desativar, apertando o botão 54C no painel de controle ― ela explicou, Ian percebendo que não havia notado a presença do botão desde o início da viagem. ― Me permite um comentário?

― Claro.

― Limpe seu banheiro. O odor é desagradável.

Ian riu e a voz não entendeu a demonstração daquela emoção. Talvez ela não entendesse nenhuma emoção, era apenas uma máquina, afinal.

No final, a viagem prosseguiu normalmente após o cinturão de asteróides. Não houve demasiados problemas, se não uma ou duas antenas danificadas. Ian arrumou-as rapidamente.

O que surgiu à frente de Ian a partir de agora era mais do que assustadoramente belo; era a prova cabal de que seres humanos não são absolutamente nada. Júpiter enchia seus olhos de lágrimas, o tamanho mais do que descomunal, fazendo a Terra parecer uma minúscula bolinha de golfe. Sua coloração que tendia para o marrom, suas luas orbitando seu planeta hospedeiro como filhos orgulhosos de um pai. Júpiter era como a porta de abertura para a filosofia de Ian. Ele começara a perguntar de que valia tantas pessoas absolutamente dispensáveis acharem que valem tanto, se o Universo é tão absolutamente maior; alheio à suas preocupações terráqueas?

― Seres humanos são engraçados ― disse Virgo enquanto Ian tinha os olhos repletos de lágrimas, contemplando o maior planeta do Sistema Solar.

Ian não poderia concordar mais.

Alguns anos de viagem já haviam completado-se quando o próximo planeta começou a surgir no horizonte da nave alva. Virgo começou a dar os dados que Ian necessitava.

― Saturno. O segundo maior planeta do Sistema Solar. Sua faixa de aneis…

Mais alguns dias de viagem pela imensidão inócua do espaço sideral bastaram para que, mais uma vez, Ian desse conta de sua insignificância.

― Deseja ver algo? ― perguntou Virgo, Ian começando a contemplar o planeta enquanto ligava os aparelhos necessários para a observação e estudo do mesmo.

― Claro ― respondeu, sem desviar o olhar que alternava entre os botões e o planeta.

A tela de hologramas surgiu à frente de Ian.

― Tamanho comparativo da Terra e Saturno, por Virgo ― se auto-anunciou a nave.

Um filme começou a ser exibido com uma música de fundo pela nave. A Terra era vista ao vivo, enquanto Saturno, idem, estava incomensuravelmente mais próximo. A Terra não era nada. Nunca passaria de uma bolinha azul, com pessoas acreditando que são mais do que realmente são.

A imensidão de Saturno enchia os olhos de Ian.

Mais meia década bastou para que Urano estivesse tão próximo quanto Saturno esteve um dia. E depois, Netuno, que encerrava os planetas. Alguns fiapos de brancura surgiam no meio do cabelo de Ian quando ele finalmente aproximou-se de Netuno, sua coloração azulada remetendo irremediavelmente ao planeta que Ian havia abandonado.

A nave recebeu uma comunicação da Terra. A mensagem havia partido do planeta dias atrás, no entanto, chegara apenas agora, terminando de percorrer a distância que separava Ian do resto do mundo.

“ Ian”, começou a mensagem, “como você sabe e espera, dissemos à você que a viagem toda demoraria trinta anos para acontecer, até seu retorno para a Terra. É com imensa tristeza que tenho de admitir que faltamos com a verdade para com você, meu caro observador astronômico. Venho dizer a você, que, em verdade, o combustível e o alimento da nave se esgotará após sua passagem por Plutão, nos confins de nosso Sistema. Acredite, todos nós sofremos por você. Adeus.”

A voz do diretor parecia pesarosa. O mesmo homem que havia libertado Ian, anos atrás, agora o condenara à morte.

As pernas de Ian tremeram e ele caiu, de joelhos. As lágrimas rolavam por sua face e caíam sobre o chão metálico da nave que ele odiava com todas as suas forças. Seu peito inflava enquanto os soluços crueis rompiam-lhe pela boca. Seus olhos ardiam, a vermelhidão consumindo-os. Ele estava tomado pelo desterro.

Dois dias se passaram antes que Ian voltasse a alimentar-se, os dois dias passados jogados no chão da nave, absolutamente silencioso, Virgo entendendo a dor do companheiro de muitos anos.

Depois de muito tempo, quando a nave finalmente passou por Plutão, Ian tomou uma decisão.

― Adeus, Virgo ― despediu-se ele.

― Adeus.

E apertou o botão 54C, silenciando a voz que havia ouvido por todos aqueles anos.

Correndo até o painel de controle da nave, desligou todas as funções disponíveis. A nave foi tomada pela escuridão. Voltou para a cadeira onde havia sentado muitas e muitas vezes para estudar e contemplar os planetas. Sentado ali, no escuro absoluto, olhou para frente.

Viu estrelas distantes, supernovas inalcançáveis e nebulosas gigantes. Mas, acima de tudo, Ian viu a faixa final de sua insignificância.

Os pontos dourados pareciam estar sobre um veludo caríssimo à frente dele.

Foi então, que Ian verdadeiramente pensou.

Pensou naquele planeta que havia abandonado décadas atrás, quando seu cabelo ainda coloria-se de juventude, quando sua face não envergava-se de rugas. Pensou com carinho, pensou com ódio, pensou com amor. Também pensou na jovem Katherine, percebendo que, embora o crime ainda lhe doesse por todo o corpo, ele não era significativo.

Pensou também em todos os líderes. Religiosos, políticos. Pensou em como todos tratavam com imenso respeito quem não o merecia, e destratavam os que mais faziam por merecer. Todos os líderes, absolutamente crentes de que desempenhavam um papel fundamental para toda essa imensidão negra que Ian fitava. Todos átimos de consciência, patéticos, resignados em sua própria condição de megalomaníacos.

Também pensou na vida. Em como ela é frágil, e ao mesmo tempo, forte. Frágil de pensamento, forte pela sobrevivência. Finalmente entendeu filósofos que havia taxado de loucos durante toda sua vida. Entendeu o que insignificância queria dizer.

Todos perdidos naquele planeta repleto de água, todos pensando serem importantes o bastante. Todos querendo ser. Todos querendo ter. Todos simplesmente acreditando que são.

Ian não chorava.

Tudo resumia-se à vida daqueles seres que acreditavam descender de uma linhagem absolutamente divinizada, quando em verdade eram apenas primatas cujos cérebros bem desenvolvidos os faziam pensar que tinham uma profunda ligação com algo aparentemente inexistente.

Deus.

Deus era o que Ian via. Ele sabia disto. Deus era toda essa imensidão universal na qual estávamos inseridos. Pessoas buscavam na escuridão um Deus que poderiam achar através da luz da contemplação.

Conhecimento.

Foi então que Ian parou por completo, silencioso. Percebeu que não poderia fazer mais nada, e estava bem com isto. Ian não calou sua boca, mas calou também o seu ser, sua consciência, que o fazia ser tão importante ao mesmo tempo em que era tão dispensável. Katherine.

Ian deu-se conta do panorama geral de sua morte.

Ele percebeu que, a partir de agora, simplesmente respiraria. Simplesmente não faria nada. Olhando para a imensidão incalculável à sua frente, Ian deu-se conta de que perder-se-ia no meio de estrelas, nebulosas, supernovas, buracos negros, galáxias, dimensões.

Ian iria tornar-se o que sempre havia sido. Rumando sem destino para a imensidão negra e latente à sua frente, Ian iria tornar-se uma imutável e eterna poeira das estrelas. 

Conto produzido para um concurso. Todos os direitos autorais são reservados exclusivamente ao autor.

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4 pensamentos sobre “Poeira das Estrelas

  1. Lindo *-*
    Perfeito *-*
    Melhor conto lido em 2011 *-*

  2. […] lá para ler meus amados livros. Estou postando Cartas de Siracusa e uma tradução em inglês de Poeira das Estrelas! Comentem, heim?! Conforme for revisando, vou postar Nebulosa, Colisão e Supernova […]

  3. […] eu ganharia meus primeiros centavos com um CONTO! Sim, Um Observador foi premiado, lembram? Poeira das Estrelas e Mãenequim, publicados! E todos você conferiu aqui no blog, com muitas semanas de […]

  4. Conto mais precioso do universo.

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