Herói

Khaled olhou tudo ao seu redor. Os prédios em cores modorrentas e crepusculares, o chão iraquiano coberto daquela poeira fúnebre, o andar irregular das mulheres cobertas e, não obstante, o caminhar doloroso dos cães e gatos mutilados.

Sua mão direita coçava seu cabelo bem aparado e acariciava a pele morena que cobria seu rosto. Se seu pai ainda estivesse vivo, ele estaria à sua frente, pedindo para que Khaled continuasse caminhando, pois estava quase na hora das orações.

Mas o Sr. Hamir há muito havia morrido com aquele míssil que destruíra a laje de sua loja. De tudo aquilo, só restaram as inscrições da popa da arma. United States of America.

Khaled cuspiu a lembrança amarga e continuou andando, sozinho.

Sua mãe o recebeu na porta de casa, afagando o único filho que continuava vivo. Os dois sentaram-se à mesa e conversaram por alguns instantes.

E isso se repetiu por longas e longas semanas.

Até que então, surge alguém novo na vida do pequeno Khaled.

“Tenho uma proposta”, o homem colocou-se à frente da criança que acabara de sair da escola.

Khaled levantou os olhos miúdos e encarou o desconhecido. Barba, o turbante branco enrolado na cabeça, os dentes amarelos devido ao narguilé. A criança continuou em silêncio, esperando o homem continuar para poder sair.

“Sei que seu pai, o honrável Sr. Hamir morreu há alguns meses”, o homem prosseguiu, fazendo os olhos amendoados de Khaled enxerem-se daquele líquido salgado que transportava amargura. “Ele era muito digno. E hoje venho oferecer a chance para você se vingar, jovem Khaled”.

Khaled retesou-se, não por interesse, mas medo.

“De onde o senhor…”

“Trabalhamos juntos na guerra do Kuwait, há muitos anos atrás”, mentiu ele. Mas a criança era jovem demais para saber que seu pai jamais havia ido para guerra nenhuma.

No entanto, o jovem Khaled continuou conversando com o homem desconhecido, interessado em poder honrar o legado de seu pai.

“O que eu faço para vingar a morte de meu pai, senhor?” os lábios de Khaled semicerraram-se numa linha firme e tensa. Expressão de ódio. Expressão que criança nenhuma jamais deveria mostrar. Mas o pequeno Khaled estava acostumado a ela.

A expressão estava em todos os rostos na rua, em todas as lágrimas nos velórios, em todos os olhares na mesquita. Khaled era apenas mais um.

“Morra em nome dele”, continuou o homem.

A criança retesou-se de vez, os ouvidos atentos, o coração disparado, os pés estacados, o cérebro processando medo e exultação.

Uma semana se passou antes que o pequeno desse sua resposta.

Na’am”, decretou ele.

Sim.

O jovem Khaled acabara de concordar em morrer pelo legado de seu pai. O legado de alguém que não tinha mais um legado a defender. Khaled morreria por alguém que não vivia. A mais cruel das antíteses, a mais dolorosa das realidades.

Na outra manhã, apenas uma preparação. Um colete com pólvora e pregos foi cuidadosamente colocado em baixo das roupas empoeiradas de Khaled. Uma instrução foi dada. Entrar na sala de aula e esperar. Só. Apenas esperar pela morte certa. Apenas esperar para morrer e matar.

“Você vai morrer como herói. Alá tem muitas e muitas coisas boas para você. Esse é seu destino. Apenas obedeça.”

E ele obedeceu. O sol alto, as passadas ligeiras, o suor frio e as mãos geladas. Não havia dito adeus para sua mãe. Mas já era tarde demais.

Sentou em sua cadeira cotidiana, as nádegas tocando na madeira fria. Olhou para cada um daqueles rostinhos que pertenciam a seus amigos. De Laila até Noah. Vinte crianças e a professora amontoavam-se naquela saleta, felizes em sua infelicidade, contentes com as disparidades que a vida lhes mostrava. Apenas crianças e a professora.

Foi então que Khaled se arrependeu. Não queria morrer. Não queria matar aqueles pequenos amigos, a sempre adorável professora. Não queria. Queria desinstalar a bomba. Queria acabar com tudo aquilo.

“Professora, me ajude!”, clamou. Lágrimas escorriam por seu rosto infantil e seus dentes de leite revelavam-se numa careta de choro. A professora veio, e quando todos deram conta da situação, aconteceu.

Um clique. Um conectar de fios. E o zunido dos pregos vindo logo após a explosão. Em cada rostinho, congelava-se um último sorriso. Em cada vida, perdia-se um bom amigo. Em cada instante, destruíam mais e mais aquilo que jamais haviam lhes pertencido.

Khaled não morreu como herói. E se o tivesse feito, não saberia. Estaria morto. Homens buscam até mesmo na morte o que não tem valor sequer  na vida.

O homem olhava tudo aquilo de longe. O pequeno cogumelo de fogo, os gritos desesperados, as vinte crianças mortas, junto com aquela mulher mutilada. Tão absolutamente perdidos, o sorriso na face contente e realizada do terrorista.

Khaled era só mais uma criança. Khaled era apenas uma criança.

O terrorista deu às costas para a escola em chamas e saiu, louvando a Alá.

Mas ele sabia da verdade.

Matar em nome de Deus, é fazer d’Ele um terrorista.

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Um pensamento sobre “Herói

  1. Thai disse:

    :O
    Coitadinho, como você gosta de matar seus personagens. Ainda não me conformei com a morte da Lyra ok?

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