Arquivo mensal: maio 2011

Relatos da Viajante do Infinito

Ela era tudo. Mas não o tudo apaixonado dos casais juvenis unidos sob a luz do luar e o sussurro do clichê. Ela era tudo. O conjunto de nada que compõe o infinito, o mundo visto sob a perspectiva da pérola presa na concha.

Ela era uma oração, um livro de Clarice, um poema de Drummond.

Em verdade, ela não tinha nacionalidade ou planeta. Era do Universo. Mas para efeitos de ignorância mortal, acostumada com o tangível, diremos que se tratava de uma brasileira, habitante – ou presidiária? – do planeta Terra.

Inara será seu nome, ainda que nenhum nome a possua.

Tinha muitas características, ainda que nenhuma delas seja valorizada por aquele conjunto de hominídeos habitando a singela bolota azul e molhada alguns milhares de quilômetros de distância separando-a daquela bolota gigantesca, amarela, seca e quente.

A mais marcante de todas: ela tinha uma tatuagem de Pequeno Príncipe.

Calmamente atado àquele planeta em particular.

Ela era um sopro de calmaria, o apagar de um cigarro irritante, o delicioso cheiro de primeiro dia de primavera.  Talvez ela fosse um conto completo de Caio Fernando de Abreu.

Demos material imaginativo para os hominídeos: ela morava ao sul, Paraná. Sua cidade tinha nome de cobra, mas não envenenava a pobre Inara com seus prédios cinzas e livrarias escassas.

Um dia me encontrei com Inara, há alguns meses atrás. Estávamos num lindo lugar – os aneis de Saturno, se não me falha a memória –, e a adorável garota me contava aspectos gerais de suas visitas pelo todo. Enquanto isso, ela mastigava uma Amandita; infindável vício de sábado à tarde.

Netuno era gelado, de acordo com a garota. Betelgeuse, de fato, abrigava Ford Prefect. Esta dimensão era finita. Havia um buraco negro no centro da galáxia. Humanos tendem à insensibilidade.

Ela não tinha uma nave, mas tinha dois olhos. Olhos molhados, cheios de sensibilidade e ternura. Ela amava o tudo, considerando o nada.

Tenho a ligeira sensação de que ela entende o abstratismo; Picasso faz sentido.

O oxigênio não lhe fazia falta, e ela parecia adorar café bem coado. Com um impulso, ela saltou. Subiu, subiu, subiu, subiu… tão alto! Mais alto do que aquele amaldiçoado baobá jamais seria!

Caiu em Júpiter.

Cheirava a esgoto, mas tinha gosto de brigadeiro, mais tarde ela me contou.

Certa vez ela voltou à Terra e tirou uma foto na frente de um muro pichado. O muro se coloriu, e ela apareceu.

Seu inevitável ponto fraco era o preto e branco.

Ela não dependia das cores, mas vivia através destas. Cores de todas as cores, tonalidades, modalidades e cheiros.

Na última vez que nos vimos estávamos aqui. Na esquina daquele colégio qualquer. E nos despedimos.

Uma linda característica não valorizada pelos mortais: Inara sabia fazer do comum, inesquecível.

E hoje ela sumiu, para sempre, para o infinito.

Tenho a impressão de que se eu orar com vontade, com desejo, ela irá aparecer. Ou pelo menos me ligar a cobrar.

Qual a companhia telefônica do eterno?

Mas hoje eu durmo sob o manto do nostálgico, e Inara continua a buscar seu pequeno príncipe pelo infinito, pelo Saara, aprendendo línguas extintas e buscando compreender o que todos nós já desistimos de entender.

Nós mesmos.

Da Terra,

Douglas.

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Eu li: Anilina, Ziguezague e Désirée

Vocês não imaginam a felicidade que estou fazendo este post! Eu tenho sumido, eu sei. Só tenho a dizer em minha defesa: conciliem uma faculdade de Direito com a publicação de um livro mais trabalhos acadêmicos externos mais o fim de um relacionamento que você achou que fosse durar para sempre. Mas nós sobrevivemos!

Enfim, hoje vamos falar de um livro que, embora curto, é de um conteúdo extenso e delicioso. Anilina, Ziguezague e Désirée foi escrito pelo meu amigão João Paulo Hergesel, o JP! Sim, lá do Joaninha Platinada!

O livro é uma coletânea (é coletânea ou compilação? HAHAHA) de contos que o JP Hergesel escreveu. Os contos vão desde o extremo do singelo até o ápice do sobrenatural. O meu conto favorito foi, sem dúvida, o que dá o nome do livro.

O conto Anilina, Ziguezague e Désirée fala sobre a busca de um espírito por um local onde possa passar a eternidade. E é fofo, leve e tocante.

Quando recebi o livro autografado pelo correio, nem acreditei. Olhem o texto lindo que o JP colocou no livro para mim:

Ao Doug:

Era um dia comum e nascia uma conversa tão comum quanto. Aprendi, portanto, que o excepcional surge do comum.

Se alguém me perguntasse, naquele dia, se a amizade seria real, confesso que responderia com incerteza.

Se me perguntarem hoje, respondo a com a certeza de que ela é… desde aquele incerto dia.

2011 marca a minha estreia nos livros impressos e, por proeza do destino, também marcará a estreia de um amigo chamado Douglas Marques, uma pessoa importante para mim, importante para a literatura, importante para o mundo.

Não está ao meu alcance presenteá-lo com a maior maravilha do universo, por isso dedico-lhe este livro, para que possa compartilhar comigo a maior maravilha que pude dar ao meu universo.

Espero que este textinho comum possa ser considerado excepcional e se torne o 15º conto deste livro.

Unicamente deste livro.

Um abreijo do seu “gêmeo literário”!

Hergesel.

Não ficou demais?!

Eu não aguentei não postar o texto aqui, estava lindo demais. E, sem querer exagerar, foi um dos melhores presentes que já ganhei. Não só por ser a realização do sonho de um amigo, mas também pelo conteúdo tocante e singelo. É quase que uma conversa bem humorada de Lispector e uma criança.

Quer adquirir o livro? Só clicar aqui!

Vale cada centavo, principalmente pelo mimeógrafo com depressão que me fez chorar de rir!

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Um pequeno gesto de amor;

Estávamos sentados sob as árvores verdejantes naquele luar encoberto às nossas costas. Eu alisava o pequeno sapo recém-ganho enquanto murmurava palavras desconexas. Escondiámos nossas mãos, dadas, para não despertarmos repulsa.

“Acho que foi Lispector quem disse que a vida é uma sucessão de momentos tristes, onde os intervalos alegres são o que conferem à ela um sentido.”

O sapo exalava o odor agradável do perfume que lhe pertencia. Pi, da Givenchy.

“Você não se importa com o fato de eu gostar de meninas e meninos?”

“Eu não acredito em bissexualidade.”

“Trate de começar a acreditar, então.”

Risos. O sapo era alisado com cuidado.

“Mas você me ama. E eu sou menino. Você deve ter um preferido.”

“Não tenho. E eu não o amo porque você é menino. Você podia ser menina, menino. Mas eu o amo porque você é você.”

Silêncio. Continuo.

“Profundo isso, né? Deveríamos anotar.”

“Deveríamos mesmo. Eu te amo taaaaanto!”

“Eu também te amo.”

Um selinho.

Para não despertar repulsa.

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Resultado da promoção!

E aí, galerinha?! Como estão?! Ansiosos?!

Eu estou! E Nilsen e Aline, lá do Caindo de Boca, também!

Mas vamos ao que interessa: A grande vencedora do concurso é… 

Momentos de tensão.

A grande vencedora é o número 85! Parabéns, 85. Você acaba de ganhar uma coleção completa do Guia do Mochileiro das Galáxias!

Brincadeirinha. Vamos ver a quem corresponde o cupom número 85?

JOSIANE FERREIRA DA S.

Parabéns, Josi (intimidade, oi)! Entrarei em contato por e-mail, ok? Assim você pode receber de forma cômoda e suave aí na sua residência seus livros!

Quem não ganhou, não se desanime! Em breve surgirão outras promoções como essa, que só aconteceu graças à parceria com o Caindo de Boca!

Obrigado, MESMO à todos que participaram! Um beeeeijo à todos e boa leitura à Josi!

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