Relatos da Viajante do Infinito

Ela era tudo. Mas não o tudo apaixonado dos casais juvenis unidos sob a luz do luar e o sussurro do clichê. Ela era tudo. O conjunto de nada que compõe o infinito, o mundo visto sob a perspectiva da pérola presa na concha.

Ela era uma oração, um livro de Clarice, um poema de Drummond.

Em verdade, ela não tinha nacionalidade ou planeta. Era do Universo. Mas para efeitos de ignorância mortal, acostumada com o tangível, diremos que se tratava de uma brasileira, habitante – ou presidiária? – do planeta Terra.

Inara será seu nome, ainda que nenhum nome a possua.

Tinha muitas características, ainda que nenhuma delas seja valorizada por aquele conjunto de hominídeos habitando a singela bolota azul e molhada alguns milhares de quilômetros de distância separando-a daquela bolota gigantesca, amarela, seca e quente.

A mais marcante de todas: ela tinha uma tatuagem de Pequeno Príncipe.

Calmamente atado àquele planeta em particular.

Ela era um sopro de calmaria, o apagar de um cigarro irritante, o delicioso cheiro de primeiro dia de primavera.  Talvez ela fosse um conto completo de Caio Fernando de Abreu.

Demos material imaginativo para os hominídeos: ela morava ao sul, Paraná. Sua cidade tinha nome de cobra, mas não envenenava a pobre Inara com seus prédios cinzas e livrarias escassas.

Um dia me encontrei com Inara, há alguns meses atrás. Estávamos num lindo lugar – os aneis de Saturno, se não me falha a memória –, e a adorável garota me contava aspectos gerais de suas visitas pelo todo. Enquanto isso, ela mastigava uma Amandita; infindável vício de sábado à tarde.

Netuno era gelado, de acordo com a garota. Betelgeuse, de fato, abrigava Ford Prefect. Esta dimensão era finita. Havia um buraco negro no centro da galáxia. Humanos tendem à insensibilidade.

Ela não tinha uma nave, mas tinha dois olhos. Olhos molhados, cheios de sensibilidade e ternura. Ela amava o tudo, considerando o nada.

Tenho a ligeira sensação de que ela entende o abstratismo; Picasso faz sentido.

O oxigênio não lhe fazia falta, e ela parecia adorar café bem coado. Com um impulso, ela saltou. Subiu, subiu, subiu, subiu… tão alto! Mais alto do que aquele amaldiçoado baobá jamais seria!

Caiu em Júpiter.

Cheirava a esgoto, mas tinha gosto de brigadeiro, mais tarde ela me contou.

Certa vez ela voltou à Terra e tirou uma foto na frente de um muro pichado. O muro se coloriu, e ela apareceu.

Seu inevitável ponto fraco era o preto e branco.

Ela não dependia das cores, mas vivia através destas. Cores de todas as cores, tonalidades, modalidades e cheiros.

Na última vez que nos vimos estávamos aqui. Na esquina daquele colégio qualquer. E nos despedimos.

Uma linda característica não valorizada pelos mortais: Inara sabia fazer do comum, inesquecível.

E hoje ela sumiu, para sempre, para o infinito.

Tenho a impressão de que se eu orar com vontade, com desejo, ela irá aparecer. Ou pelo menos me ligar a cobrar.

Qual a companhia telefônica do eterno?

Mas hoje eu durmo sob o manto do nostálgico, e Inara continua a buscar seu pequeno príncipe pelo infinito, pelo Saara, aprendendo línguas extintas e buscando compreender o que todos nós já desistimos de entender.

Nós mesmos.

Da Terra,

Douglas.

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Um pensamento sobre “Relatos da Viajante do Infinito

  1. Inara Gabriela Figueiredo disse:

    Caramba, que lindo! Puxa vida, que lindo mesmo, estou arrepiada aqui! Demais, demais, demais!!!

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