Cartas Dinamarquesas

O sol nesta parte do globo era tão intenso que fazia minha cabeça doer de forma incessante. Cada evoluir das ondas de calor me maculava, meus passos fracos transpassando a calçada enquanto caminhava para a casa dos familiares.  Mal podia acreditar que aquele verão intenso estava acontecendo ali, no sul do Brasil.

O portão branco bateu atrás de mim, os cachorros uivando baixo enquanto os deixava sozinhos no quintal espaçoso. A distância era pequena, e pés de manga e limoeiros me fariam sombra naquele dia anormalmente quente. Mas antes, aquela buzina comum apitando atrás de mim.

“Hoje tem carta, Diogo!” , avisou o carteiro, descendo da motocicleta e percebendo que estava prestes a sair de casa.

Sorri, assinando o protocolo e recebendo o envelope esbranquiçado.

Li o remetente enquanto me despedia do homem, insuportavelmente vestido de amarelo naquelas férias desejadas.

Pedro Henrique E.
Copenhague, Dinamarca

Dinamarca?!, pensei. Abri o envelope, passando pelo postal enquanto puxava a folha artificialmente amarelada.

Hej!

Prometi que enviaria a carta há alguns meses, eu sei. Me desculpe desde já. As coisas não têm sido fáceis!

Bem, como você está?! Espero que bem! Aqui está um frio insuportável, ainda que a neve combine bastante com os enfeites natalinos.

E… espero que você me perdoe.

Perdão. Era tudo isso ao que se resumia ao sentido daquela carta. Meus olhos estagnaram, incapazes de prosseguir a leitura. O perdão se resume na aceitação de fatos que não dependeram da vontade de quem nos magoou, e eu não tinha certeza se isto fora o que acontecera com Pedro.

Amassei o papel, contornando meus valores ao jogar a folha na rua. Calmamente voltei para dentro de casa, ligando o ar condicionado e desistindo de sair de casa pelas próximas 24 horas.

Era absurdo a forma como poucas palavras eram capazes de destruir o que fora construído durante um dia inteiro, talvez até uma semana, dado o início das férias.

E, esquecendo-me do postal, somente lembrei do papel quando já estava jogado sobre o sofá, assistindo um programa na TV.

Observei a paisagem dinamarquesa, Copenhague se perdendo enquanto rasgava o papel, bem como o Eu Amo Você impresso no verso, que irremediavelmente se tornou um conjunto indissolúvel e incompreensível de letras miúdas que, no fundo, eu sempre quis voltar a ler.

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