O dilema de “Mulheres Ricas”

Comprar um avião é igual comprar uma blusa, hello!

A televisão brasileira tem dado saltos consideráveis em sua programação, sendo esta afirmação inválida apenas no que tange às atrações dominicais. E a mais nova forma de entretenimento foi lançada na última semana pela Band, o programa Mulheres Ricas.

Retratando o cotidiano de algumas senhoras da alta-sociedade brasileira, o programa mostra seus gastos, seus luxos (como dar água mineral francesa para  um cachorrinho maltês), mas, principalmente, sua diferenciação da maior parte de nossa sociedade tupiniquim.

Estive checando o site do programa (além dos comentários em vídeos do YouTube, uma vez que perdi a estreia) e me surpreendi com a completa ignorância da maior parte destes comentários. Os usuários ofendiam a emissora (e as participantes, cumpre ressaltar) por exibir um programa deste tipo, quando crianças carentes padeciam de fome numa rua ao lado da que Val Marchiori (hello!) fazia compras.

E então eu me toquei o que T. Harv Eker ensinou tão brilhantemente em sua obra, Os Segredos da Mente Milionária: 

Pessoas têm a noção pré-concebida de que ricos são maus, de que enriqueceram graças ao trabalho de outras pessoas.

Li o livro há mais de três anos, e esta não é uma citação ipsis literis, mas se amolda perfeitamente ao contexto. A verdade é que, sim, muitas crianças passam fome logo ao lado da Oscar Freire, e muitos vendedores de picolé ainda passam pela frente do Copacabana Palace. Mas isso não desmerece o contexto do programa de maneira alguma.

Nos é televisionado diariamente (sim, diariamente!) a maneira como nossos pequeninos não vão à escola, como nossos avós não conseguem se aposentar e também como alguém tem de sobreviver com esgoto à céu aberto. Mas para isto, basta assistirmos Jornal Nacional, ou qualquer outro. Até mesmo um da Band vale. Mas nada disso parece estar impulsionando pessoas a irem às ruas ajudar essas crianças, idosos ou adultos.

A exibição de um programa que mostra a rotina de uma joalheira, uma arquiteta, uma apresentadora de TV, uma herdeira do petróleo e uma motorista de Fórmula Truck não desmerece (ou diminui) em nada o mérito do programa.

Enquanto isso, todos nós perdemos a oportunidade de lançar um olhar antropólogo-sociológico neste nicho crescente dos milionários (ou bi, em alguns casos). Quisera eu que os brasileiros parassem de observar a riqueza das participantes – inegavelmente inspiradas no norte-americano The Real Housewives – como um fator maléfico da atração enlatada, e passassem a ver o show de maneira a tentar compreender um mundo que, ainda que esteja logo ao lado, é completamente diferente do seu.

Pouco dinheiro não desfaz caráter, assim como muito não desconstrói personalidade. Passemos a ver o dinheiro com bons olhos, sem que a sua acumulação excessiva queira dizer, necessariamente, que o favelado só mora na favela porque o rico é rico. Não é à toa que todo vilão de novela global é rico: as noções brasileiras de dinheiro sendo irremediáveis quanto à personalidade da pessoa que o possui.

Toda forma de discriminação é estúpida. Não sou milionário, e estou longe de sê-lo (mas serei, se Deus quiser!), contudo, diminuir alguém por possuir uma conta bancária polpuda é tão ignorante quanto um rico acreditar que todo pobre vive de vender geladinho.

Agora, façamos o favor de ver o programa sob um espectro saudável da curiosidade, acompanhando a transformação da casa de Débora (pintada numa cor absolutamente tenebrosa) e todos os outros desenrolares deste que tem tudo para ser um dos mais cômicos reality shows já exibidos em nossas TVs.

Como diria Val (insuportável em sua maneira de misturar a língua anglo-saxã com a nossa latina): Hello, Brazil!

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