Arquivo da categoria: Poemas

Ando devagar…

Não houve tardes perdidas na escola
Não houve cadernos muito utilizados
Houve, contudo, domingos bem aproveitados
Churrasco e família misturados
Brincadeiras e amigos, agora apenas lembrados

Houve sertenejo, forró
Músicas nordestinas junto ao colo da vó
Causos e acasos ao lado do fogão de lenha
Houve também, o despertar
O levantar-se da cama num horário jamais estabelecido
Nunca compreendido
Apenas respeitado.

Havia chuva, tardes indeléveis
Cobertores e televisão funcionando como remédio
Para o pior tédio
Comida, bebida, pipoca
Saudades, memórias, um pouco de Coca.

Havia sorrisos, havia brincadeiras
Desejo de crescer, não ser assim a vida inteira
E, vejam só a ironia
Agora tudo o que queremos é ser
A criança que fomos um dia.

Etiquetado

Mundo Frio

 

 

Há membros translúcidos
Séculos tragados
Humanos destroçados
Ideias perdidas
Sonhos quebrados
Guerras interrompidas.

Um passo fora da trincheira
Uma Guerra Fria inicia-se
Robôs vendidos à preço de água
Batalha, batalhe, batalhemos
Coros infernais
Desespero mutualístico
O monte Párnaso está destruído
Tudo tinge-se num cubismo doentio
Picassa, Picasse, Picassemos.

Não há flores, há versos
Não há rifles, há ideias
Não há motivos, há apenas vingança
Não há amor, há apenas cobrança
Aja, seja, escreva
Lute!

Então você acha que estou sozinho?
Trincheiras desmancham-se
Elas existiram?
Perguntas melancólicas
Poemas sem sentido
Amor interrompido
O monte Párnaso está destruído.
Você sabe pelo que está lutando?

 

Poema inspirado na canção Cold War, da talentosíssima Janelle Monáe.

Etiquetado

O Vazio

 
Há, lá dentro, a falta de um suspiro
Um revolver automático nos lençóis
A fronha amassada de um travesseiro.
Faltam ruídos
Sobra ausência de vida.

 Faltam poemas
Remanescem páginas rasgadas
Nesgas de apego
Odor de lágrimas
Caminhos interrompidos
Bisturis abandonados.

 Velam o invelável
Silenciam o insilenciável
Não há sonhos tranquilos
Não há sondagem de piedade
Há, impossivelmente, o sempre contínuo…
Remorso.

 A porta não se mexe
Não há vultos indistintos
Há lágrimas junto à tevê
Há câncer nas paredes em que se vê
Nos espelhos, refletem-se as dores
No silêncio perpetuam-se valores.
Mas ao fundo, distante,
O sol nasce lentamente.

 

 

Etiquetado

Meu Sertão

Aos que ficam, desejo boa sorte
Aos que ainda permanecem
Fitando as silhuetas áridas desta terra ingrata
Apenas digo adeus.

Desde Canudos até meus passos fundos
Tudo o que sinto é esse cheiro putrefato
De trabalho, morte e persistência
Morte e vida Severina
Onde fostes, esperança minha?

Tudo o que nos resta é partir
Deixar para sempre aqui
Esse sentimento de algo inacabado
Do filho antecipado
E da morte, que levou o coitado.

Ossos, pele e tripa
Composição normal deste povo sofredor
Alimento de vida ao verme decompositor
Moscas e formigas
Únicos sobreviventes desta guerra que nunca terminou
E agora, para sempre, eu vou.

Eu vou para um lugar
Onde ainda haja esperança
Que brote, seja no mísero sorriso
Ou em uma pequena criança
Lá não existe nomes
Vontades, desejos ou satisfação
As moscas e vermes não me comerão
Serei eterno,
Ainda que meu coração não pulse
Que meus pulmões não trabalhem
E que minhas mãos não sejam nada mais
Do que espectros vazios.

Vou para lá,
Para onde minha mulher há muito se foi
Para o lugar onde todos repousam
Não obstante meus filhos
Roubados de mim pela própria sede, fome e miséria
Vou para lá, com Deus Nosso Senhor
E ainda que tudo isso não seja uma mentira maior
Do que aquelas que me contaram
Prefiro acreditar que agora vou
Para um lugar onde o sertão ainda não alcançou.

Etiquetado , ,